Guitarras e Mapas: Técnica ou a Arte da construção do Novo?

Não importa seu estilo musical, o que você gosta de ouvir, consumir ou apreciar. Com certeza você já prestou atenção em um guitarrista, como por exemplo, de blues. Poderíamos ficar horas discutindo – e alguns até brigando – para chegar a nenhum consenso sobre qual seria o melhor do mundo.

Mas, neste momento, peço que pense naqueles guitarristas que, ao tocarem, estão mais que transferindo energia para seus dedos e palheta; artistas – na concepção etimológica correta – que ao criarem uma música ou interpretarem a canção vão além da execução de notas dispostas em uma partitura ou tablatura; pessoas que utilizam o combo ‘instrumento’, ‘cabos’ e ‘amplificador’ não como simples equipamentos, mas como extensão do seu corpo para realizar algo que organicamente não se tem. Chamamos isto de técnica.

B.B. King não nasceu com cordas em seus braços ou um amplificador em seu corpo, mas transformou madeira, metais e componentes eletroeletrônicos em extensão física, para além de sua mente e alma: e a chama de Lucille. Coloca em cada nota (e, como ele diz, fazer esta valer por mil) e bend não só a urgência desta no lugar certo, no momento correto; sente, analisa e o interpreta e, neste momento, utiliza a caixa de ferramentas disponível em seu cérebro.

E você? Neste momento, pode entrar em um site, comprar uma guitarra, pedais, amplicador, guias de aprendizado, um ‘jogo’ interativo para o videogame, acessar vídeos na Internet ou mesmo comprar revistinhas na banca de jornal (ainda existem?) e sair tocando sua música ou riff preferidos em pouco tempo; aprenderá técnicas, acordes, dinâmica e tempo. Mas quando e como você atingirá o nível de interpretação daquele primo que chega na sua casa no final de semana, começa a brincar com os sons e de repente está criando um blues em escala diatônica menor: e foi você que avisou a ele que este era o nome.

Quando criamos Mapas, seja para o cálculo do melhor caminho para a loja mais próxima, auxílio aos gestores públicos na definição da aplicação de recursos na cidade ou para a denúncia da população sobre um problema em seu bairro por meio do smartphone, estamos utilizando técnicas de Análise Espacial (e/ou Geográfica – mas esta discussão fica para um novo texto), e o mesmo fenômeno dos guitarristas ocorre.

Você pode adquirir o melhor hardware disponível no mercado (e hoje falamos de uma ampla gama de dispositivos, desktops, notebooks, smartwatchs); pode adotar mais que um software, mas uma Plataforma Tecnológica que permite a utilização de técnicas e métodos (‘caixa de ferramentas’) para coletar, armazenar, modelar, analisar e compartilhar seu problema de negócio – desde a localização dos seus clientes, cálculos de risco ambiental, proposição da criação de uma nova escola; contudo, a componente principal continua– e assim continuará – sendo o músico: aliás, neste caso: o ‘usuário’. Pensar que Sistemas de Informações Geográficas (SIG/GIS) criam mapinhas, bastando apertar botões é desconhecer a Ciência Geográfica que muitos, que isto afirmam, dizem defender.

E que tal pensarmos em abolir o termo ‘usuário’ e pensarmos em ‘cidadão’. Afinal, mapas pressupõe a representação – mesmo que ilustrativa em algumas situações – do Território, vivendo o Lugar.

A sociedade contemporânea tem urgência por respostas territoriais “no local certo, no momento certo”. A utilização da Inteligência Geográfica – integração da Geografia e Tecnologia – pode trazer estas respostas, assim como um guitarrista constrói a melodia pela continuidade de suas notas e, desta construção, a transformação. E, um mapa, vale mais que mil imagens e tabelas.

Utilizamos ferramentas tecnológicas aplicadas à Ciência Geográfica desde seu início. Antes a extensão que precisávamos eram bússolas (e alguns pássaros já nascem com ela), barbantes, criação de projeções para planificação, nanquim e tantos outros instrumentos. Hoje, podemos empoderar toda a sociedade como construtora do seu Espaço.

E então? Tocar é somente técnico? Não. Analisar o Espaço Geográfico utilizando extensões tecnológicas? Muito menos. B.B. King ao interpretar o que talvez seja uma de suas músicas mais conhecidas – Thrill Is Gone – desvela uma nova história a cada show. Que possamos revelar e construir um novo mundo, em plena transformação, que vive em uma relação dicotômica de estabilidade dinâmica. Construamos o Novo!

P.S. Texto escrito em meados de março/abril, e agora uma homenagem ao legado de B.B.King, falecido na data de 15/05. R.I.P. Riley B. King