Geração SimCity, Minecraft, Pokémon GO… não! A emergência da Sociedade “Geo”

Artigo publicado originalmente em 16/07/2016

Clique aqui para ler a versão mídia (ED. 68 REVISTA conhecimento prático: GEOGRAFIA) – O poder do “Geo” no Pokémon GO
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O advento de novas tecnologias sempre traz o que podemos chamar de “quatro ‘des’” desconfortos, desajustes, desafios. E, a cada semana, parece que temos a descoberta, principalmente pela mídia, de temas que estão cada vez mais ligados à Geografia. No entanto, nesta semana, a proporção foi na casa de milhares, em todos os aspectos.

O Pokémon GO nem mesmo chegou oficialmente ao Brasil e já temos todos tipos de ‘especialistas’ falando do tema (viva os youtubers) e causou, como dizem os jovens, a quebra da Internet, sendo nos últimos dias o assunto mais procurado em indexadores e discutido em redes sociais.

Pokémon GO já chegou?!

Pokémon GO já chegou?!

Do ponto de vista econômico, em uma era de disputa de hardware e software, cloud e SaaS, entre Sony e Microsoft, a Nintendo mais uma vez se reinventa (desde suas cartas de baralho), mas suas históricas quebras de paradigma não se limitam ao core-business. Estas conseguem fazer com que a empresa capte, como dificilmente outra no ramo, o momento sócio-espacial que se insere, transformando matrizes e/ou vetores em experiências para além de mundos virtuais: em experiências de interação. Com ações que subiram mais de 70%, a discussão não se dá em torno de resoluções mas de aplicações; menos sistema e mais plataforma.

O filósofo Pierre Lévy afirma que o digital e uso intensivo de computadores e redes proporciona uma nova dimensão de interação que é economicamente e socialmente tangível. O virtual redefine as noções de tempo, espaço e a própria noção de conhecimento.

Mas, o que estamos vivenciando? Artigos e vídeos inundam esta mesma nuvem de informações, tentando ser o primeiro a demarcar terreno nestes fenômenos. Agora, precisamos que a Academia também se aproprie, trazendo leituras e críticas calcadas nas novas relações estabelecidas pelas Redes Informacionais, com expressões e impactos no Espaço Geográfico, assim como as empresas, que precisam compreender para além do que os chavões e relatórios de grandes consultorias como estas Mudanças reorganizam os setores produtivos e relações empresariais.

Em comum, temos a informação geográfica associada, não no sentido cartesiano de coordenadas, mas das múltiplas dimensões a esta inerentes.

Mude para um discurso de Marketing e abrirá uma bela consultoria para municípios

Mude para um discurso de Marketing e abrirá uma bela consultoria para municípios

Esta é uma mudança de cultura, e não somente uma moda ou mesmo “geração x, y, z, SimCity, Minecraft…”.

Sou da Geração SimCity: planejamento, gestão, zoneamento, ordenamento territorial, mapas. São as palavra-chave de grande parte de meus artigos de mestrado/doutorado, mas poderiam ser também classificações do próprio SimCity. Zonas, Quadras, Análise de falta de bombeiros ou polícia, indústrias poluidoras nos limites da tela…

Esta nova Geração Minecraft, inundada de vídeos no Youtube, revistas e livros nas bancas e ‘até’ na TV, constrói novas dimensões espaço-territoriais, enquanto continuo a ouvir de alguns pais – e professores – que o Minecraft não faz sentido; contudo, outros conseguem vislumbrar algo mais do que “aquele ‘joguinho estranho‘ de blocos que eles vivem jogando e assistindo”, como a Microsoft, que comprou a empresa criadora Mojang por US$ 2,5 bilhões.

realworld_minecraftOu o projeto apresentado pelo grupo da Holanda de Dmitri Bagh, Brian De Vogel e Dale Lutz, durante a Esri User Conference 2015: “City Engine & Minecraft: Engaging Citizens in 3D City Planning“, onde o Minecraft é usado para aumentar o engajamento dos cidadãos e sua efetiva realização no planejamento de sua vizinhança (Lugar). A pergunta desafiadora do grupo: “Um Planejador Urbano de 10 anos de idade?”. Se você gostou, conheça também o projeto de 2013 “ArcGIS for Minecraft“.

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No artigo  “Creating a Smarter Future“, somos apresentados ao uso de jogos em Geodesign. O Geodesign é definido pelos autores como “a integração da arte do design com tecnologias geoespaciais como os SIGs – para encontrar soluções inteligentes e sustentáveis. Estas soluções são focadas em arquitetura paisagista, planejamento urbano, conservação, mas também pode ser adotado em escalas maiores, como planejamento econômico, de transportes e, até mesmo, jogos“. E podemos acrescentar: a Gestão de Políticas Públicas, que envolvem diversas dimensões que extrapolam o ‘simples’ uso de ferramentas de análise geográficas.

Desta forma, como apresentado por Feixa & Leccardi (2010) em “O conceito de geração nas teorias sobre juventude”, a Geração pode ser entendida à luz de Mannheim, uma vez que “a considera como dimensão analítica profícua para o estudo da dinâmica das mudanças sociais (sem recorrer ao conceito de classe e ao núcleo da noção marxista de interesses econômicos), de “estilos de pensamento” de uma época e da ação. Como concluem, “em outras palavras: o que forma uma geração não é uma data de nascimento comum – a “demarcação geracional” é algo “apenas potencial” mas é a parte do processo histórico que jovens da mesma idade-classe de fato compartilham (a geração atual)“.

No contexto empresarial, a Mudança Transformacional (transformational change) é reconhecida em Gestão de Mudanças ao tratar das dimensões e práticas necessárias à mudança de Cultura, com alterações profundas dos processos de gestão, estruturação e de concepção de trabalho, segundo um plano previamente elaborado. Recomendo a leitura do texto de Joseph Kerski para o entendimento em Educação – transformational change is enabled as past technologies simplify.

A Transformação Digital

A Transformação Digital – clique e veja ela ocorrendo

E este é o ponto que gostaria de destacar: as mudanças, ao longo de toda história da humanidade, ocorrem quando as tecnologias já existentes ficam mais simples e acessíveis. Seria esta uma manifestação clara da cultura da Internet, apresentada em 2003 por Castells, a partir da conjunção de outras quatro culturas: a tecnomeritocrática, a hacker, a comunitária virtual e a empreendedora? Temos falado de Transformação Digital, uma adjetivação da transformação humana desde seus primórdios, tecnologias do passado simplificam, mudanças acontecem.

[e antes que venha a crítica quanto à, primeira vista, divergência entre Castells e Lévy no mesmo texto, cito Simões (2009): “há um aspecto que não pode ser recusado na intersecção dos autores acerca dos estudos das tecnologias de comunicação, que nos leva a uma conclusão primordial: não é possível mais ignorar o impacto dessas tecnologias à vida humana, muito menos à vida em sociedade.”]

O Pokemon GO é uma app fruto do seu tempo-espaço. Se as ferramentas de aproximação de pessoas, baseadas em dados geográficos, já causam impactos na saúde pública – como o Tinder ser responsável por, ao menos, seis surtos de sífilis na Grã-Bretanha – Sistemas de Localização, Sistemas de Informações Geográficas, entre outros Sistemas estão presentes há décadas nas mãos dos especialistas ou mesmo #GeoGeeks e já trouxeram mudanças profundas e respostas sociedade, como o caso do surto de Cólera em Londres em 1853.

A novidade, para muitos, é “ser Pokémon“, pois jogos deste tipo já existiam até mesmo no Garmin eTrex, ainda sem realidade aumentada, com labirintos virtuais e outros, ou mesmo o Ingress, produzido pela mesma produtora Niantic, mas ainda desconhecido de muitos, ao perguntar em palestras ou outros eventos sobre ele. Independente de marcas ou aplicativos: já ouviu falar do Geocaching?

A construção dos conceitos de espaço e tempo, antes restrita a alguns silos científicos, são apreendidos cada vez mais de maneira quase anárquica nestas redes, bem como sua instrumentação e produtos. Se antes os mapas antes eram construídos por alguns, hoje mapas são (des)contruídos a cada minuto na cloud e seus serviços de localização. Já vivemos uma Revolução, em que We live in a post-privacy world, and geoinformation is a major reason for this. GIFORUM 2015.

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Geomorfologia ok. Obrigado G.O.G.com

Também é a mudança que chega aos “Sistemas de Informações Geográficas”, do Sistema de Registros para o Sistema de Engajamento. Vislumbramos a emergência, como apelidou o Professor Rui Azevedo, da “Sociedade da Inteligência Geográfica – SIG”. A “Sociedade Geo”, interage com Dispositivos, VivênciaSociedade e Sistemas de Informação integrados e interligados por meio de redes de informações, como anunciado por Castells, em que a relação não é somente homem-máquina, mas uma relação cidadão-sociedade-tecnologia, onde é possível utilizarmos smartphones, redes sociais e colaborativas, softwares e aplicativos de baixo custo ou mesmo padrões abertos.

Se antes falar sobre Geoprocessamento, SIG, Sensoriamento Remoto e Sistemas de Localização (como o GPS) era algo complicado, que envolvia entender sobre configurações de hardware, software e estava restrito a um pequeno número de superespecialistas, hoje, as tais tecnologias – e geotecnologias – estão cada vez mais intuitivas e disponíveis no dia a dia de qualquer cidadão que acompanha desde a previsão do tempo até cria rotas de suas viagens, bem como das empresas e governos que devem se apropriar delas para o entendimento, tomada de decisão e ações territoriais.

O período de apropriação das técnicas e tecnologias ligadas à chamada ‘Análise Espacial’ não poderia ser mais propício. A multiplicidade de sistemas sensores remotos [principalmente os orbitais, alguns financiados por empresas ligadas às grandes corporações de coleta, análise e consulta sistemática de dados via internet], a facilidade no uso de ferramentas cartográficas, em seus níveis mais elementares de manipulação de estruturas representacionais do Espaço Geográfico [pontos, linhas e polígonos] e a necessidade do homem do período técnico-científico-informacional em ser, estar e se localizar permitem os usos e abusos do Geoprocessamento.

A Geografia das Coisas, na Era da Consumerização e da Transformação Digital, vai muito além da Internet das Coisas: não estamos falando somente de uma rede de sensores e dispositivos interligados. Estamos vivendo uma nova maneira de integrar – e transformar – a sociedade, em que o protagonismo não é somente um desejo ou algo para a minoria: todos podem fazer parte desta Revolução Geoespacial. (leia o artigo completo)

O mesmo ‘mentor’ da aproximação dos mapas digitais e imagens de satélite para grande parte da sociedade mundial, John Hanke, que fundou uma empresa anos atrás chamada Keyhole, foi depois comprada pela Google serviu de base para o Google Earth, o software que permitiu uma disseminação nunca vista de muitas geotecnologias, está por trás da Niantic Labs, produtora de Pokémon GO. Recomendo a leitura do artigo “How Google Is Quietly Benefiting From Pokémon Go’s Success” e, mais uma vez, a Era das Plataformas emerge neste texto.

Alguns podem dizer que “a gente se acostuma a muito pouco, e fica achando que é o máximo liberdade pra escolher a cor da embalagem“. Sim, por isto textos são reflexivos e não conclusivos. Contudo, os des estão bem claros e vão muito além da diversão. Gotta Catch ‘Em All.

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