Inteligência Geográfica pode ser aliada na prevenção de tragédias como a enchente que atingiu o Norte do Estado

Jornal A Notícia – Grupo RBS
18/04/2015

Especialista diz que a chave é saber usar com agilidade os meios de informação disponíveis

Por Leandro Junges. Os prefeitos e as comissões de Defesa Civil das cidades do Planalto Norte terão pelo menos duas missões importantes a partir de agora: como gastar corretamente os recursos destinados ao socorro das vítimas da enchente e criar modelos de prevenção de catástrofes eficientes.

Inteligência geográfica pode ser aliada na prevenção de tragédias como a enchente que atingiu o Norte do Estado Valderi/Arquivo PessoalEspecialista em Inteligência Geográfica, o gerente de educação Abimael Cereda Junior, diz que a chave é saber usar com agilidade e de forma integrada todos os meios de informação disponíveis atualmente, do GPS ao smartphone, passando pelas imagens de satélite, aplicativos móveis, câmeras e alertas meteorológicos. O que não pode, segundo ele, é ficar vendo a previsão do clima e os alertas de chuvas e desastres e agir depois.

— O gestor tem a missão de usar todas as informações disponíveis. E a gente nem está falando de a Prefeitura comprar ou usar coletores de dados como pluviômetros, equipamentos caros. É usar a inteligência das pessoas — afirmou o especialista.

Na prática, Abimael sugere a adoção de um modelo que vai depender de cada região, de cada cidade, mas que prevê, acima de tudo, o uso de todos meios de informação disponíveis _ dados de órgãos oficiais, da própria Prefeitura, dos moradores e de institutos de pesquisa, tudo em tempo real. E não é questão de custos ou de fazer grandes investimentos.

O que é

A Inteligência Geográfica é um conceito relativamente novo. Diz respeito ao uso da geografia e todas as possibilidades espaciais para dar respostas a um ou mais problemas, sejam eles sociais, econômicos ou naturais. Cabe às organizações que tem a gestão territorial, empresas e até entidades e ONGs apropriar-se do sistema.

Também é necessário uma plataforma de análise de informações geográficas (Geographic Information System – GIS) que possa a partir dos dados apresentar as respostas, seja na linguagem de mapas, seja como um relatório.

“É preciso trabalhar em comunicação integrada” – Abimael Cereda Junior

A Notícia – Como os gestores das cidades atingidas por fenômenos climáticos podem se prevenir usando sistemas de Inteligência Geográfica?

Abimael Cereda Júnior –
Algumas cidades já estão agindo com base no sistema. A cidade de Juiz de Fora (MG) já trabalha bem a questão de Defesa Civil e que pode ser usada também por Santa Catarina. O Rio de Janeiro já utiliza a plataforma com uma perspectiva mais ampla. Todos os setores da Prefeitura já estão envolvidos com algum tipo de inteligência geográfica.

AN – Mas como as informações podem ser reunidas e usadas?

Abimael – A grande questão quando a gente fala de inteligência geográfica para a gestão _ e não só para gestão imediata, mas também para o planejamento das ações de emergência _ é que temos diversas fontes de dados, imagens de satélite, e as pessoas, que são coletores de dados em potencial. Hoje há todo um potencial de uso.

A Prefeitura, a sociedade e os órgãos de pesquisa já estão produzindo uma série de dados críticos. Nos casos de alagamentos ou qualquer problema desse tipo, as pessoas que estão postando em uma rede social ou coletando essas informações, por exemplo, são uma boa fonte. A Prefeitura poderia estar usando essa inteligência e pode mapear em tempo real as condições da cidade.

AN – Mas não há recursos para equipamentos mais caros.

Abimael –
A gente nem está falando da Prefeitura usar coletores de dados como pluviômetros ou equipamentos caros. É usar a inteligência das pessoas, colocar as informações disponíveis dentro do sistema. Quando a gente fala de inteligência geográfica, não se está falando só de dados físicos como uso e ocupação do solo, relevos. A gente já utiliza dados sociais e econômicos, até escolaridade.

A grande questão que a inteligência geográfica traz é justamente mostrar que a gente pode emitir dados, sejam eles vindos de agentes de pesquisa, sejam da Prefeitura ou mesmo da população, mostrando o que está acontecendo no território.

AN – Mas como é possível usar as informações para prevenir ou evitar catástrofes?

Abimael – A gente consegue correlacionar essas variáveis. E alcançar um conjunto de dados físicos e humanos de inteligência geográfica, com a compreensão de fenômenos ou mesmo criando cenários. E isso permite saber como ocorrem os casos de calamidade pública, como o que está acontecendo nas cidades aí de Santa Catarina.

Nós precisamos usar todas as fontes de dados para tomar decisões, mas é mais do que isso, mas que determine ações e intervenções que impactam diretamente na vida das pessoas. Uma das questões é saber, por exemplo, para onde está indo o dinheiro que está sendo liberado pelos governos para as emergências. Não é pouco. São milhões. Mas quanto desse dinheiro é realmente investido. Ou até se aquela ponte que está sendo consertada, afinal, é mesmo onde o dinheiro deve ser empregado prioritariamente.

AN – Como as ações podem ser integradas entre os setores da Prefeitura ou da sociedade?

Abimael –
É preciso trabalhar com comunicação integrada. Um setor fica frágil sem a informação do outro. A ideia não é a Defesa Civil ter um sistema ou o planejamento tenha o sistema, o setor de finanças ter o sistema. O conceito tem de ser além do sistema. Tem de ser de plataforma. Empoderar toda a Prefeitura, ou seja, atingindo diretamente o cidadão. Não pode ter um software ou um mapa só para a Defesa Civil.

Tem de ser tudo integrado. O prefeito não está interessado, necessariamente, em saber que a declividade do terreno é de 15%. O prefeito quer olhar gráficos e planilhas e saber onde estão as áreas mais atingidas, onde ele tem atuar prioritariamente, com mais ou menos investimentos.

AN – E como a população pode saber?

Abimael – A base tem de ser única e o cidadão pode acessar isso por meio de um portal na internet ou no seu telefone celular. O cidadão pode ter um aplicativo no celular e pode contribuir com a plataforma. Já é uma realidade. Cabe aos gestores colocar em prática.